Preocupação financeira x Produtividade

(Aquiles Mosca – Coluna do Gestor, Jornal Valor Econômico 12/fev/2019)

Sua empresa ou seu chefe já se interessaram alguma vez por sua situação financeira?

preocupação financeira

A grande maioria responderá que não, sem precisar pensar muito.

Há quem prefira que seja assim. Afinal, é algo muito pessoal e não é da conta de ninguém. Certo?

Estudos recentes de finanças comportamentais (Mani, A., Mullainathan, S., Shafir, E., & Zhao, J. – 2013) revelam que não é bem assim. Preocupações financeiras são prejudiciais às habilidades cognitivas, isto é, à capacidade de absorver e processar informações.

Uma característica das preocupações financeiras mapeada pelos pesquisadores é que elas tem um caráter permanente. Tal constância é exaustiva para o cérebro. Quando se está com falta de dinheiro, nível de endividamento elevado e contas se amontoando, o indivíduo se vê constantemente distraído por tais pensamentos.

De posse desse diagnóstico, que foi baseado nos relatos dos indivíduos estudados, os pesquisadores resolveram testar em condições de laboratório se tal distração poderia comprometer o raciocínio eficiente e a produtividade.

Para tanto, deram aos participantes do estudo alguns problemas financeiros para resolver.

Por exemplo, como resolver financeiramente uma necessidade inesperada de manutenção do carro? A questão variava em sua magnitude financeira. Alguns tiveram que lidar com um problema que chegava a apenas R$150,00, enquanto outros precisaram equacionar uma situação que chegava a custar R$15.000,00. A maioria perceberá que dar um jeito em uma manutenção inesperada de R$150,00 é bem mais simples que um reparo que exija R$15.000,00. 

Na sequência, os pesquisadores deram aos participantes uma série de testes de atenção e capacidade cognitiva. Como resultado, observaram que aqueles que lidaram com problemas financeiros pequenos (reparo do carro com custo de R$150,00), não tiveram comprometimento da capacidade cognitiva. No entanto, os que lidaram com um problema maior (reparo com custo de $15.000), tiveram uma performance substancialmente pior em suas habilidades de atenção e resolução de problemas.

Ou seja, a preocupação financeira grande, ainda que hipotética, comprometeu o desempenho nos teste ministrados.

Saindo do ambiente de laboratório, os pesquisadores foram literalmente à campo. Para tanto, levaram os testes cognitivos à pequenos produtores rurais. Alguns produtores fizeram o teste antes da colheita, período no qual ainda não foram pagos e, portanto, não sabem como serão seus ganhos e sua renda. Outra amostra de produtores fez o teste após a colheita, quando a maioria já havia sido paga e não sofria mais com tal incerteza. Conforme esperado, os produtores que fizeram o teste após a colheita tiveram uma performance superior nos testes.

Quando há preocupações financeiras relevantes, a mente humana tem dificuldade de executar funções que exigem raciocínio e atenção.

No âmbito de escolas e universidades, alunos com preocupações financeiras terão um fator comprometedor de sua capacidade de aprendizado, com impacto na performance acadêmica. Na esfera profissional, o colaborador verá sua produtividade, capacidade de resolução de problemas e gestão de conflitos reduzida

Vem à mente o caso prático dos EUA, onde o impasse entre o presidente Trump e o Congresso americano levou o governo americano à paralisação, deixando funcionários públicos sem receber seus salários por mais de um mês.

Imagine que os controladores de tráfego aéreo responsáveis pela segurança dos voos nos EUA podem estar com a mente focada em como pagar as contas do mês, ao invés de totalmente focados no trabalho complexo do dia a dia.

Ou ainda, como é impactado o trabalho dos médicos nos hospitais públicos no Brasil, onde salários são pagos com atraso em virtude dos problemas fiscais em alguns estados. Mais valoroso torna-se o trabalho exemplar dos bombeiros de Minas Gerais, que atuaram com bravura em Brumadinho, apesar de não estarem sendo pagos com regularidade e sequer terem recebido o 13º salário do ano passado.

 

Dinheiro pode ser um problema, mas preocupação com dinheiro é um problema ainda maior.

Conforme esse tipo de estudo se dissemine, empresas e gestores deveriam passar a dar à saúde financeira dos colaboradores a mesma atenção que já é atribuída à saúde física.

Se a preocupação é com a produtividade dos funcionários, programas estruturados de educação financeira e clínicas de atendimento ministradas por profissionais habilitados deveriam ser tão comuns como as tradicionais palestras voltadas à hábitos saudáveis de alimentação, exercícios físicos ou convênios de desconto com academias de ginástica e nutricionistas.  

 

Aquiles Mosca

Aquiles Mosca é responsável por Digital, Produtos e Marketing no BNP Paribas Asset Management. É professor de finanças comportamentais, gestão de ativos e estrategista de investimentos. Autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais”, preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima.

E-mail: aquiles.mosca@br.bnpparibas.com

 

Artigo originalmente publicado no Jornal Econômico, na coluna do Gestor, no dia 12 de fevereiro de 2019.

 

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